Zonas de Gatilho | Julia Kater

Rota I

Rota I

Recorte de fotografia impressa em papel algodão, 155 x 200 cm, 2018

Rota II

Rota II

Recorte de fotografia impressa em papel algodão, 155 x 200 cm, 2018

L

L

Recorte de fotografia impressa em papel algodão, 155 x 112 cm, 2018

O

O

Recorte de fotografia impressa em papel algodão, 155 x 112 cm, 2018

Brasey

Brasey

Recorte de fotografia impressa em papel algodão, 165 x 150 cm, 2018

La Roche

La Roche

Recorte de fotografia impressa em papel algodão, 195 x 180 cm, 2018

Malena

Malena

Recorte de fotografia impressa em papel algodão, 152 x 200 cm, 2018

Villerin

Villerin

Recorte de fotografia impressa em papel algodão, 112 x 150 cm, 2018

Lugar que chegamos

Lugar que chegamos

Recorte de fotografia sobre papel algodão, 46 x 34 cm cada, 2015

Acordo

Acordo

Still, vídeo, som, 5’22”, 2018

Retângulo, série Carbono

Retângulo, série Carbono

Óleo sobre papel, 65 x 50 cm, 2018

Grafomotor I, série Carbono

Grafomotor I, série Carbono

Óleo sobre papel, 65 x 50 cm, 2018

Grafomotor III, série Carbono

Grafomotor III, série Carbono

Óleo sobre papel, 65 x 50 cm, 2018

Figura Humana II, série Carbono

Figura Humana II, série Carbono

Óleo sobre papel, 65 x 50 cm, 2018

Zonas de Gatilho | Julia Kater

 

  07/04/2018 até 19/05/2018

Artistas: Julia Kater.

O corte e os recortes | Raphael Fonseca

As relações entre a fotografia e a paisagem parecem ser um dos interesses centrais da pesquisa de Julia Kater. Quando observamos seus trabalhos realizados desde 2011, a linguagem fotográfica aparece de forma insistente com um olhar que registra ambientes abertos nos quais a água é muitas vezes predominante. Em contraste com essas imagens, em outras obras vemos elementos que remetem a quintais, mesas e objetos domésticos. Esse conjunto remete a ambientes que recordam de maneira silenciosa as férias e as trocas afetivas que se dão com alguma rotina em um mesmo lugar. São fotografias que nascem da contemplação de algo maior que a escala humana: da natureza e de sua imensidão e, ao mesmo tempo, do vazio proporcionado pela passagem do tempo.

A maneira como a artista apresenta essas obras, porém, não a coloca na esteira da fotografia clássica; seu interesse está na sobreposição de camadas de imagem. A fotografia, mesmo que emoldurada, traz um volume e uma tridimensionalidade que transformam a imagem habitualmente vista como um espelho do real em uma massa de informações. O resultado não se trata de algo visceral; os recortes distribuídos, mesmo que irregulares, parecem pensados de maneira cirúrgica. As linhas sobrepostas a uma imagem remetem, por exemplo, às silhuetas de montanhas ou ao contorno do corpo humano. Desenha-se com a fotografia sobre a fotografia, e são sugeridas novas narrativas distribuídas nas imagens de uma mesma série.

A presente exposição, intitulada “Zonas de gatilho”, dá prosseguimento e amplia essa investigação de Julia Kater. As experimentações com as imagens fotográficas permanecem, mas os resultados exploram mais os vazios entre os elementos visuais. “Rota I” e “Rota II”, por exemplo, trazem fotografias de árvores que têm seus troncos e galhos recortados, possibilitando que o público possa ver algo circunscrito pelo desenho de suas folhas. Esses fantasmas da paisagem, assim como outras imagens que seguem a sobreposição de ambientes domésticos e silhuetas, parecem falar mais sobre recorte do que colagem – ou seja, menos sobre a justaposição de informações visuais e mais sobre o vazio entre elas. Parecem ser convites à operação imaginativa do espectador em relação às coisas que ali não estão.

A pesquisa de Kater se desenvolve entre cortes e recortes. Partindo do princípio de que a fotografia é uma espécie de corte dentro da experiência da visão – com suas escolhas, limites tecnológicos e dimensões enquanto objeto –, é possível afirmar que interessa à artista o tráfego entre as matrizes de suas imagens e as costuras possíveis de serem feitas a partir delas. A opção tomada nessa exposição por mostrar esses grandes recortes suspensos em varais que tensionam sua fragilidade e volume denota o aprofundamento de sua pesquisa e o desejo de sair do lugar seguro – e por vezes asfixiante – das molduras.

Essa mesma operação entre a totalidade de uma imagem e a possibilidade de desdobrá-la em outras se faz presente em outros dois trabalhos apresentados. Em “Lugar que chegamos”, a artista também utiliza a fotografia, mas em menor escala e com um resultado mais sutil. Parte-se da imagem de uma multidão, e esta é decomposta em sessenta imagens menores em que partes desses corpos são mostrados individualmente. De maneira mais radical do que nos exemplos anteriores, o vazio – agora da folha de papel – parece ser o protagonista e se sobrepõe a esses pedaços de gente. Cada um está por si.

Já em “Acordo”, vídeo em preto-e-branco, o nosso olhar é direcionado para o céu. A câmera registrou nuvens, e na edição a artista criou encontros fictícios entre elas nos quais suas cores são alteradas, e uma espécie de geografia temporária é imaginada. Novamente temos perante os nossos olhos o interesse da artista na justaposição de imagens e na criação de mundos a partir da contemplação da natureza. De maneira indireta, a obra pode nos levar a refletir sobre divisões territoriais e suas relações com o espaço aéreo. De quem é, por exemplo, a chuva que cai na fronteira do México com os Estados Unidos? Talvez, como o vídeo sugere, de um outro lugar felizmente sem nome.

Por fim, conforme desenvolvido desde a série “Desenhos livres sobre temas impostos”, a artista tem experimentado para além da fotografia e em diálogo com suas pesquisas como pedagoga. Kater tem interesse nos processos de expressão visual de crianças por meio de desenhos e suas primeiras experiências com a escrita. Com o papel carbono, ela consegue mensurar o modo como as crianças se utilizam o lápis e do papel e como o desenho feito em uma superfície pode se transferir para outra. Desenhos que ocupam diferentes folhas de papel se encontram impressos nas mesmas superfícies de papel carbono, trazendo desde seu início uma sobreposição de maneiras de criar formas.

De maneira análoga, na série intitulada “Carbono” a artista transfere elementos de desenhos infantis para a tinta a óleo sobre papel. Assim, o branco do papel é substituído pelo preto do óleo, e os desenhos com lápis se transformam em baixos-relevos. O universo infantil dessas experiências ganha o peso da matéria escolhida e, ao mesmo tempo, coloca o espectador para pensar sobre as relações entre os elementos vistos em cada uma das imagens. “Figura humana”, “Grafomotor” e “Retângulo” são alguns dos subtítulos que apontam para as diferentes atividades desenvolvidas pelas crianças. Enquanto algumas imagens apontam para a necessidade de se preencher todo o espaço – como nos exercícios grafomotores –, outras peças chamam a atenção pelo vazio, como visto nas séries mais geométricas. Nesses trabalhos, Kater lida com um novo corte e outros recortes. As matrizes agora são as folhas de papel, e as maneiras como esses desenhos podem ser especializados são seu modo de tecer novos sentidos.

Há aqui novamente a sensação do peso do tempo. Não aquele tempo entre o presente que olha a fotografia e o passado que remete ao clique, mas sim a possibilidade de observamos esses desenhos e nos recordarmos de nossas próprias garatujas, cadernos de caligrafia e imagens que dizíamos estarem daquele jeito por “não sabermos desenhar”. Ao relacionar as diferentes experiências existenciais do tempo que dão o tom da exposição, o título escolhido pela artista retorna à nossa reflexão: “Zonas de gatilho”, ou seja, o termo usado pela neurociência para se referir aos estímulos que, uma vez disparados no presente, remetem a algo do passado.

A partir dessa definição, podemos repensar a exposição de Julia Kater como um exercício de lidar com essa que é uma das coisas mais íntimas e misteriosas da existência humana: a memória. Seja através das sobreposições fotográficas que parecem nos levar a algum lugar que já percorremos, seja por meio de suas compilações de desenhos que nos trazem de volta às nossas experiências com o lápis e o papel, a sua pesquisa versa sobre algo que passou por nós e que não conseguimos colocar em imagens ou palavras.

Poderíamos chamar isto por “reminiscência”, mas fazê-lo seria novamente trancar a experiência da vida e da fruição das imagens em uma palavra. Mais vale permitir que o tempo e suas imagens nos levem para outros caminhos.

© Ding Musa

© Ding Musa

© Ding Musa

© Ding Musa

© Ding Musa

© Ding Musa

© Ding Musa

© Ding Musa

© Ding Musa