Plano Inclinado

Zênite.02

Zênite.02

Tinta laca branca, marcador permanente e letraset sobre ardósia ferrugem, 120 x 120 cm, 2017

Relato da Expedição para Mensuração do Alcance dos Mananciais da Bacia do Rio Jequitinhonha

Relato da Expedição para Mensuração do Alcance dos Mananciais da Bacia do Rio Jequitinhonha

Impressão com tinta pigmentada mineral sobre papel Canson Edition Etching Rag 310g, ferro, etiqueta de papel, escalímetro em madeira e metal e rocha, 73 x 244 cm, 2017

Pointe du Van

Pointe du Van

Polaroids, papel Fabriano 300g e acrílico, 22,5 x 33 cm, 2007-2017

Britannica N11

Britannica N11

Desenho em grafite e serigrafia sobre pvc expandido, 141 x 102 cm, 2017

Britannica N01

Britannica N01

Desenho em grafite e serigrafia sobre pvc expandido, 141 x 102 cm, 2017

Britannica N2.12

Britannica N2.12

Desenho em grafite e serigrafia sobre pvc expandido, 82 x 147 cm, 2017

Eu Pedra Fig. Nº 8T

Eu Pedra Fig. Nº 8T

Impressão pigmentada sobre papel Hahnemühle William Turner 210g, tinta gouache, madeira balsa, impressão laser sobre adesivo transparente, acrílico e alfinetes, 36 x 49 cm, ed. 1/3 + p.a., 2017

Eu Pedra Fig. Nº 9B

Eu Pedra Fig. Nº 9B

Impressão pigmentada sobre papel Hahnemühle William Turner 210g, tinta gouache, madeira balsa, impressão laser sobre adesivo transparente, acrílico e alfinetes, 49 x 36 cm, ed. 1/3 + p.a., 2017

Eu Pedra Fig. Nº 4E

Eu Pedra Fig. Nº 4E

Impressão pigmentada sobre papel Hahnemühle William Turner 210g, tinta gouache, madeira balsa, impressão laser sobre adesivo transparente, acrílico e alfinetes, 49 x 36 cm, ed. 1/3 + p.a., 2017

Tabuleiro

Tabuleiro

Instalação com impressão fotográfica em duratrans, acrílico, caixas em alumínio, parafusos, caibros de pinus autoclavados, LED, cabos e componentes elétricos, 200 x 250 x 50 cm, ed. 2/3, 2017

Espaço Lugar

Espaço Lugar

Letraset sobre papel vegetal, grampos de alumínio, ferro e diabásio, 96 x 230 x 13 cm, 2017

BigBang

BigBang

Rochas e concreto, 160 x 355 x 20 cm, 2017

Memória Gráfica #8

Memória Gráfica #8

Desenho em grafite sobre pvc expandido, tinta de offset sobre pedra litográfica e ferro, 182 X 110 x 8,5 cm, 2017

Memória Gráfica #7

Memória Gráfica #7

Desenho em grafite sobre pvc expandido, tinta de offset sobre pedra litográfica e ferro, 182 X 76 x 9 cm, 2017

Memória Gráfica #6

Memória Gráfica #6

Desenho em grafite sobre pvc expandido, tinta de offset sobre pedra litográfica e ferro, 182 X 68,5 x 34 cm, 2017

Memória Gráfica #5

Memória Gráfica #5

Desenho em grafite sobre pvc expandido, tinta de offset sobre pedra litográfica e ferro, 182 X 76 x 10 cm, 2017

Plano Inclinado

Curitiba - SIM Galeria

 

  30/09/2017 até 18/11/2017

Artistas: Marcelo Moscheta.

 

"Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara"

J. Saramago

 

"Lama, cristais de sal, rocha, água"

R. Smithson

 

Embora não existam relatos concretos sobre os primórdios da pintura, sabe-se que esta nasce “em negativo”. Plínio, o Velho, em sua “História Natural”, conta-nos o episódio de uma jovem, filha de um artífice de Corinto (Grécia) que, enamorada por um rapaz prestes a deixar a cidade, teria fixado por meio de linhas, o perfil do amante projetado na parede, à luz de uma candeia.

Constituindo talvez um dos mais incertos e misteriosos episódios da história da arte, onde tudo se presta a conjecturas, nele se concretiza muito daquilo que ainda hoje entendemos por “imagem”: entre presença e ausência, simulacro e substituição.

Se a sombra está na origem da pintura, o negativo está na origem da fotografia, a qual, séculos mais tarde, acrescenta uma nova possibilidade ontológica: uma imagem é também vestígio material de um referente, “traço” ou “índice”.

Ocorrem-me estas duas “narrativas da origem”, afastadas entre si, a propósito do que Marcelo Moscheta nos apresenta em “Plano Inclinado”, a sua 2a exposição individual na SIM Galeria. Não por se tratar de uma exposição que versa sobre disciplinas específicas, antes pelo contrário, a proposta que Moscheta nos traz radica no exercício pós-moderno da escultura, isto é, a superação da disciplina e a ideia de que é possível realizar todas as modalidades possíveis do procedimento artístico, mesmo aquelas que pertencem a outro domínio, do antropológico, do documental, da mera recolecção, inventariação, do arquivo, do cinemático.

Laboratório de ensaio da arte contemporânea, a que alguns autores chamam de “arte-como-coisa-sem-nome”, a escultura desenvolveu-se no último século por várias outras vias que tornam o seu estatuto um lugar permanente de negociação. O filme, o vídeo e a fotografia agregaram-lhe a possibilidade de não deixar de ser escultura, mas poder ser também objeto e instalação, de se organizar no plano ficcional, abordar o diferido, a ausência e a não- representação.

Posto isto, é possível que nos equivoquemos se olharmos para o trabalho de Marcelo Moscheta a partir do rigor clínico e mineral que o aproxima das ciências exatas. Porque atentando somente para esta “exterioridade”, deixaremos de observar o quanto está próximo dessa erótica dos primórdios, memória de um corpo ausente, de que nos falava Plínio, O Velho.  Em suma, deixaremos de enxergar um aspeto significativo que é a operação do “imaginário”, essa “guloseima canibal que transforma o real”, que tanto instigou Freud.

De um modo geral, o trabalho de Moscheta opera nesta dialética ou tensão, e julgo que um único trabalho desta exposição é capaz de falar por toda esta complexidade, da mesma forma que uma pedra pode falar sobre a paisagem geológica a que pertence.

Intitulado “Memória Gráfica”, em referência ao conjunto de pedras litográficas que o artista encontrou quebradas de modo irregular nas suas bordas, trata-se de uma instalação que ocupa um espaço destacado da galeria, e organiza à sua volta todos os trabalhos restantes.

A ideia que nos dá, é que através dos fragmentos podemos compor mentalmente uma pequena cordilheira imaginária de “cheios” e “vasados”, numa operação artística que une o desenho ao objeto, como parte de um mesmo sistema linguístico. O dinamismo que confere ao espaço, relaciona-se não apenas a esta operação, mas também a uma ideia de origem e destino final, de nós, do mundo.

Como refere Moscheta “este trabalho procura transformar a memória contida na superfície da pedra, que um dia foi berço de inúmeras reproduções, em uma nova e última estampa, negra. Segue acumulando imagens em camadas e mais camadas, como que um palimpsesto de todas as anteriores. Um jogo cíclico entre a ideia de reprodução e de origem”.

O desenho de grafite sobre um fundo negro, rebate e multiplica o horizonte mental da exposição, como uma “superfície de projeção” onde a meticulosidade do arranjo formal abre para uma deliberada alienação da possibilidade expressiva, e destitui inclusive a dimensão cognitiva da técnica.

Esta sensibilidade do trabalho de Marcelo Moscheta, em que o legado conceitual é atravessado pelo sentimento problemático da sua própria historicidade - porque o presente não se adensa nem deposita memória -, torna-se aqui um exercício de ir e voltar. É este movimento que perpetuamente refaz a nossa relação erótica com a imagem, entre presença e ausência.

 

Marta Mestre, Setembro, 2017

 

Mais infos: https://www.simgaleria.com/exposicoes/plano-inclinado