não está claro até que a noite caia

não está claro até que a noite caia

não está claro até que a noite caia

Acrílico e metal, 154 x 120 cm, 2017

oops

oops

Acrílico e metal, 120 x 154 cm, 2017

a man on fire burns like paper

a man on fire burns like paper

Acrílico e metal, 154 x 120 cm, 2017

o que eu não posso dizer dirá sobre mim

o que eu não posso dizer dirá sobre mim

Acrílico e metal, 154 x 120 cm, 2017

infalível infalável

infalível infalável

Acrílico e metal, 120 x 154 cm, 2017

sente mas não sabe que sente então não sente

sente mas não sabe que sente então não sente

Acrílico e metal, 120 x 90 cm, 2017

Sem Título

Sem Título

Acrílico e metal, 154 x 120 cm, 2017

agora que você chegou até aqui

agora que você chegou até aqui

25 lâmpadas fluorescentes, 120 x 348 cm, 2017

Nós

Nós

Neon, 260 x 240 cm, 2017

Memória encobridora

Memória encobridora

fotografia, 120 x 120 cm, 2017

Livro em pó

Livro em pó

Potes de vidro e pó, 2017

não está claro até que a noite caia

São Paulo - São Paulo

 

  19/02/2019 até 23/03/2019

Artistas: Juliana Stein.

ENTRE ENIGMAS

 

Para sua primeira mostra individual em São Paulo, Juliana Stein, como lhe é característico, preparou um elenco enxuto de enigmas. E precisa mais? Como um dia escreveu Walter de Maria, que em 1977 instalou uma charada sob a forma de 400 para-raios num quadrado de uma milha por um quilômetro, numa região desértica do Novo México: Cada bom trabalho deve ter no mínimo dez significados. Juliana pertence a essa mesma linhagem. E quem já a conhecia, ou pensava conhece-la, preparou-se para ver fotografias. Para esses ela trouxe uma. Tão misteriosa e ambígua quanto o resto: uma penca de poemas visuais que se desdobram, primeiramente, em sentenças divergentes:

 

não

está

claro

até que

a noite

caia

 

Insinuação contraditória de que a luz chega com a escuridão – a luz da lua?  (o visitante haverá de notar que a luminosidade rebaixada do sol contido no a com til – não –, cintila seu último raio no está, tônico, despencando por detrás da linha do horizonte – até, a noite – para acabar separada pela verticalidade impositiva do i – caia);

 

aliterações:

infalível

infalável

 

em que a ideia de precisão, por um triz coincide com a impossibilidade de  expressão. Enquanto o í tônico espelha o átimo da certeza, o á abre-se em possibilidades;

 

a solução enxuta:

oops

 

em que os oo refream a conclusão, realçam o momento em que o espírito em dúvida, eriça-se; põe-se de sobreaviso, enquanto o s colado ao p, distende esse estado de espírito;

 

até o grão da palavra, o ínfimo fragmento, o átomo: u/n: quando a letra u, virada de cabeça para baixo, de vogal transforma-se em consoante. 

 

Nesse jogo de embaralhamento de linguagem, das formas que ela pode assumir, esplende na parede do fundo, pintada de preto, solução que afora o contraste encurta ilusoriamente a distância, uma espécie de relógio digital ocupando grande parte dela, feito de lâmpadas fluorescentes brancas, marcando 00:00 horas  em regime permanente.  O relógio ostenta a força da sua matéria incorpórea, cegante e misteriosa. Por que parado e por que parado no 00:00 horas? Seria um ponto de partida ou de chegada? As duas interpretações são igualmente válidas, pois, segundo a lógica mais trivial, assim como acontece com a fotografia que suspende o fluxo de um tempo contínuo iniciado sabe-se lá quando, e que vai perdurar dentro da mesma indeterminação, o relógio parado em 00:00 horas dá a entender o mesmo. De qualquer modo prefiro imaginar, talvez movido pela sugestão do título da exposição, Não está claro até que a noite caia, que o relógio empreendeu uma contagem regressiva, baixando até o zero.  O fim do dia tem a ver com apagamento, o grande zero luminoso submergindo atrás da linha do horizonte. Quando as coisas perdem sua nitidez e vão se embutindo na sombra.

 

Um dos problemas que a exposição de Juliana Stein enfrenta de frente é a cegueira produzida por um mundo onde as pessoas, por assim dizer, não piscam, não têm, porque não tem ou porque não querem ter, um minuto, um segundo que seja, de sombra, escuridão e mistério. Flutuam à tona de suas certezas flácidas, bamboleantes, o que não as impedem de emiti-las com a fúria dogmática dos fanáticos. 

 

E é nisso que reside o valor da única fotografia exposta, a imagem solitária que a artista nos concede.

 

A fotografia vai à praia. Juliana registra o corpo no lugar por excelência da exposição, mais do que isso, da superexposição; onde as pessoas colocam-se literalmente à flor da pele, escancaram sua  nudez consentida. Nessa situação, a artista, visitando o avesso, elege o corpo oculto, envolto no drapeado de um tecido branco, refulgente como o corpo de um fantasma ou de um santo, não se sabe, nunca se saberá. O que se sabe é que isso – um milagre? – acontece à luz do dia, com o sol a pino, ali onde a onda se quebra e a água desfaz-se em espuma, fragmenta-se em infinitas micropartículas, como uma exalação da matéria láctea, a matéria máter do mundo.

 

 

Agnaldo Farias