Mr Fusion

Neolítico Express

Neolítico Express

Tinta acrílica e verniz sobre cerâmica parcialmente esmaltada, 31 x 25 x 25 cm, 2018

Neolítico Express

Neolítico Express

Tinta acrílica e verniz sobre cerâmica parcialmente esmaltada, vidro, 37 x 28 x 28 cm, 2018

Neolítico Express

Neolítico Express

Tinta acrílica e verniz sobre cerâmica, 28 x 38 x 32 cm, 2018

Neolítico Express

Neolítico Express

Tinta acrílica e verniz sobre cerâmica parcialmente esmaltada, 37 x 27 x 34 cm, 2018

Neolítico Express

Neolítico Express

Tinta acrílica e verniz sobre cerâmica parcialmente esmaltada, 50 x 35 x 35 cm, 2018

A farra do boi

A farra do boi

Colagem de cédulas de dinheiro sobre papel algodão, 30 x 100 x 10 cm, 2018

O bom pagador e a terra prometida

O bom pagador e a terra prometida

Colagem de cédulas de dinheiro sobre papel algodão, 50 x 150 x 10 cm, 2018

Abertura dos portos

Abertura dos portos

Colagem de cédulas de dinheiro sobre papel algodão, 50 x 150 x 10 cm, 2018

Se o céu não chora a terra não ri

Se o céu não chora a terra não ri

Colagem de cédulas de dinheiro sobre papel algodão, díptico, 50 x 150 x 10 cm, 2018

Mr Fusion

São Paulo - São Paulo

 

  28/07/2018 até 25/08/2018

Artistas: Rodrigo Torres.

Os trabalhos da série Neolítico Express, de Rodrigo Torres, estabelecem um diálogo curioso com a tradição: consagram, através de uma profanação minuciosa, a ambiguidade entre a obra intrínseca e extrínseca que marca nossa experiência com a arte contemporânea. No caso, a familiaridade com itens valiosos, num contexto decorativo ou museológico, é discutida em um processo de ruptura com o esperado ponto de vista reverente, aquele certo de encontrar ali algo de cujo núcleo emana uma verdade e beleza integral   , para ser problematizado quanto a um desenvolvimento particular da escultura no Brasil: o estremecimento das bases de uma autonomia, a partir da conclamação da cumplicidade diante de um estágio intermediário em que nada deveria ser visto como autêntico ou acabado de antemão. 

Podemos pensar de início nos Bólides de Oiticica, no fato de que levam, desde o inicio da década de 1960, a uma relação renovada do público com o objeto, de outra forma, do participador com uma obra, que é simultaneamente um dispositivo sensorial e conceitual a ser acionado em um segundo estágio de aproximação. Ele participa no sentido de adensar a experiência ótica com uma camada de injunções às vezes precárias que culminam em significativas reconsiderações. E, principalmente, imagina que não há um único vetor construtivo que faz o artista produzir um objeto em uma totalidade que se mostra irredutível, mas um processo com idas e vindas que equaliza a posição de todos em um patamar. Nele o criador se constitui por um espelhamento instantâneo em uma criatura que reivindica seu lugar também como sujeito incompleto.

Mais recentemente, os Phanógrafos de projeção e deposição (2010), de Tunga, também se estruturaram a partir de um recipiente, vasos de cristal Baccarat, contidos por caixas articuladas que encerram sua gênese e seu funcionamento implícito. A origem desse fenômeno tange a compreensão de um princípio criativo que se afiança no onírico, superando embates voltados para a subtração de material, substituindo-os por encontros mágicos com o que está ali dado, como se aproveitasse o vácuo deixado pelo fato do ready-made ser, antes de mais nada, uma peça de cerâmica que surgiu no mundo da arte inadvertidamente. Nos Phanógrafos, a equação experimental se apresenta a partir do ficcional, estruturas que sempre comportam um segundo núcleo que irradia cor e materialidade furtiva, pois o objeto central também não se mostra integralmente, e sua cota obscura se preenche pela ansiedade de se conjugar delicadeza e brutalidade.

As ânforas de Rodrigo não contêm, não são recipiente, mas o conteúdo parcialmente embalado por um invólucro que se distanciaria no tempo do artefato encontrado pelo arqueólogo. Ali, a máxima minimalista em torno de um cubo anódino, de que “você vê o que você vê”, abre-se em um ciclo de perguntas e respostas bem menos tautológicas: não vemos tudo, e as partes nunca se equivalem, depondo o equilíbrio formal, calçando-o na gravidade, no equilíbrio real de um vaso sobre um balde, dentro de uma caixa ou sobre a mesa. 

Produzidas e finalizadas em seu estúdio na Fábrica Bhering, no Rio de Janeiro, lugar onde doces eram industrializados, longe de seus ancestrais chineses e gregos, as ânforas demonstram não apenas quebrar a redoma que instaura a obra em uma temporalidade especial que se destaca da cotidiana, mas também eternizar o momento em que esses dois tempos se encontram, quando desembalamos ou embalamos algo, quando encontramos algo que vem, através de uma lição de Joseph Beuys, reforçar potencialidades metafísicas da matéria – títulos desmentidos por legendas induzem a uma manipulação virtual que ocorre, então, junto à observação atenta das propriedades de uma objectualidade que se instaura no provisório. 

A argila primordial que amalgama o isopor, o papelão, a fita adesiva, resquícios de líquidos já vertidos ou a se verter, incorpora o mimetismo que engloba a pintura, que de fato reveste as peças  e o que parece ser o papelão areado esculpido escrupulosamente para que pareça ser aquilo em definitivo. Como se estivesse mesmo em trânsito, inviolada por alguém, acondicionada anonimamente por outro, cada uma delas se mostra em um pedestal neutro, na galeria, que sustenta outro suporte: a escultura como plataforma para o pensamento a respeito da preciosidade de sua incongruência e seu fascínio atual.

Rafael Vogt Maia Rosa